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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Lazer e regras

Texto do jornalista publicado na coluna na versão impressa da edição de 28 de junho de 2010:

A Vara da Infância e Juventude de Limeira está, corretamente, determinada em combater as violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e baixou, conforme a Gazeta revelou na sexta-feira, uma portaria que torna mais rigorosa a permânencia de menores de idade em eventos.

E, para quem duvide deste posicionamento da Justiça, melhor se acostumar com a postura mais severa.

No dia 31 de maio, a juíza Daniela Mie Murata Barrichello, autora da portaria, aplicou penalidade administrativa de multa, correspondente a dez salários mínimos, a um promotor de eventos do município que agiu “contrariamente às normas protetivas das crianças e adolescentes, afrontando a portaria do juízo” - era a norma antiga que estava vigente.

Não adianta os limeirenses reclamarem e apontarem que a Justiça quer tornar Limeira uma cidade mais chata, com excesso de regras e imposições às baladas dos adolescentes.

O endurecimento das regras vem em função da realidade, constatada por um grupo de voluntários criado pela magistrada para fiscalizar o cumprimento das regras de proteção aos menores. Que, ao que tudo indica, estão sendo violadas de forma reiterada, já que o diagnóstico é preocupante: menores tomando bebida alcoólica a torto e direito, entrando em festas impróprias para a idade e desacompanhados dos responsáveis, e coloquemos etecéteras nisso.

A portaria é um recado duro, especialmente aos pais, que não têm ideia aonde os filhos vão ou o que fazem: na última sexta-feira, um dos voluntários da Justiça se impressionou com o estado de embriaguez de um menino de 12 anos encontrado num “point” do município - de acordo com o relato, o garoto estava próximo do coma alcoólico.

São descrições como esta que fazem com que a Justiça decida agir, dentro de suas possibilidades, com severidade, para tentar evitar que o quadro se agrave ainda mais.

É importante que fique claro aos jovens que a portaria da Justiça não tem o objetivo de impedir a diversão, uma crítica que muito se ouve, por exemplo, quando o Ministério Público, por meio do promotor Luiz Alberto Segalla Bevilácqua, busca fazer valer direitos previstos em lei, no caso da poluição sonora.

São determinações que visam proteger a criança e o adolescente, e a responsabilizar quem insiste, visando somente ao lucro, infringir a legislação.

Curtir as horas de lazer é recomendável a todas as idades, especialmente aos jovens, mas a sociedade precisa destes últimos com o espírito arejado, inovador, consciente e produtivo, e não jogados às esquinas em coma alcoólico por negligência e violação à lei de alguns, sejam pais ou promotores de eventos.

Quando pais e promotores dialogarem com os filhos e frequentadores, respectivamente, no sentido destes dois últimos entenderem como diversão e regras são compatíveis, o peso da Justiça será, automaticamente, menor.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Chorar, e não ter vergonha...

Texto do jornalista publicado na coluna na versão impressa da edição de 21 de junho de 2010:

A Coreia do Norte foi, na última década, demonizada pelas potências mundiais por motivos, politicamente, justificáveis: tem um regime fechadíssimo, é considerada ditadura totalitarista, volta e meia desafia a comunidade internacional com um míssel aqui, outro ali, tem ambições atômicas e realimenta constantemente o desentendimento que a distancia do país-irmão do sul.

Paro por aí, porque este não é um texto para discutir se o ditador Kim Jong-Il é um maluco pronto a mandar pelos ares quem não segue sua cartilha.

Odiada pelas lideranças mundiais, foi a Coreia do Norte quem acolheu o responsável pelo momento mais emocionante desta que, até aqui, tem tudo para ser a mais fria (do ponto de vista climático ao futebolístico) de todas as Copas do Mundo.

O choro incontido, despido de vergonha, do atacante Jong Tae-Se durante o hino, antes da estreia de sua seleção na Copa contra a favorita equipe brasileira, mostrou ao mundo que, independentemente de pontos de vista e regimes políticos, o ser humano pode, por vias diversas, entre elas o esporte, como o futebol, demonstrar com absoluta liberdade o que o torna diferenciado entre as espécimes deste planeta: a capacidade de compreender a realidade à sua volta, reagir e transformá-la.

Ele tinha tudo para não estar ali, no gramado do Ellis Park.

Tae-Se nasceu no Japão, seus pais são da Coreia do Sul.

Antes de conseguir abrigo e obter naturalização na nação que defende na Copa, o atacante teve sua nacionalidade negada pelo país de seus pais.

Quando teve a capacidade de perceber que estava em campo para uma partida de Copa do Mundo, cantando o hino do país que lhe aceitou, Tae-Se reagiu.

E chorou, copiosamente, sem vergonha, sabe-se lá mais o quê lhe passou na cabeça, e transformou a Coreia do Norte, aos olhos do mundo, num país mais humano, onde palavras como ditadura e totalitarismo não tem relevância alguma.

Pouco importa se a Coreia do Norte contribuirá à história das Copas neste ano.

O escritor português José Saramago, morto na última sexta-feira, afirmou certa vez: “O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”.

Para oferecer ao mundo uma nova maneira de ver seu país, a sua realidade, Tae-Se não precisou ganhar nem perder, pois tanto um quanto outro são passageiros. Bastou ser humano, e não sentir vergonha disso.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Hora de torcer, mas de participar

Texto do jornalista publicado na coluna na versão impressa da edição de 14 de junho de 2010:

A senadora Marina Silva (PV) pode nem ir muito longe nas eleições presidenciais de outubro, mas já terá dado uma contribuição muito importante ao País se sua principal tese, divulgada na última semana, no lançamento de sua candidatura ao Planalto, for seriamente debatida durante o período de campanha.

A pré-candidata afirmou que o País precisa deixar de ter um Estado provedor - aquele que oferece tudo - para ser um Estado mobilizador, aquele que é feito com a participação das pessoas.

Dessa afirmativa, pode-se visualizar uma crítica sutil à condução do Bolsa Família, programa de transferência de renda de sucesso no governo Lula, mas por muitos tachado de assistencialista - em vez de ensinar a pescar, dá o peixe.

A ideia de um Estado mobilizador faz todo o sentido, especialmente num País em que, nas últimas décadas, o interesse pela política decaiu.

A quantidade de pessoas filiadas a um partido diminuiu gradativamente. Decisões que antes eram tomadas com militâncias passaram a ser discutidas em mesas de restaurante, em círculos fechados.

Reflexos disso estão em toda parte, e integram nosso dia a dia: observem se há muitos candidatos ao posto de síndico, à liderança de uma associação de bairro ou numa simples eleição para representante de classe na escola.

A aprovação da Ficha Limpa, ocorrida neste mês, é um exemplo de quanto é benéfica a participação incisiva da sociedade no processo de transformação do País.

Tudo bem que os políticos desidrataram bastante o projeto original, mas a pressão dos movimentos organizados e opinião pública foi fundamental para que algo, ao menos, ocorresse.

Foi a partir da mobilização das pessoas que o projeto vingou. E essa participação deveria também ser incentivada pelo Estado.

Na última semana, Limeira sediou uma audiência sobre o orçamento estadual de 2011, excelente oportunidade para apresentação de sugestões de necessidades ao Estado. Mas muitas entidades representativas de importantes segmentos da sociedade sequer mandaram representantes à Câmara.

Mais: diante das características dos pedidos, o presidente da audiência, deputado Mauro Bragato cobrou união entre Limeira, Cordeirópolis e Iracemápolis nas solicitações, já que muitas delas são de interesse conjunto.

Três cidades que deveriam estar unidas, mas que hoje pedem, de forma desordenada, contribuição do Estado, por pura falta de mobilidade, ou de interesse político mesmo de seus administradores, ou seja, de poucas pessoas, em detrimento da necessidade de muitos.

Estamos em época de Copa do Mundo, raro período em que o País se mobiliza e torce unido. Amanhã, todos esquecem diferenças de ideologias por um mesmo motivo.

Se esses mesmos torcedores, ao final do torneio, mantivessem a iniciativa de, em vez de esperar dos outros, participar ativamente do processo de construção de seu bairro, de seu trabalho, de sua comunidade ou cidade, mudanças significativas poderiam, de fato, ser implementadas em nosso País.

Debater se devemos ter um Estado mais mobilizador requer, primeiro, que a sociedade saia da inércia e deseje participar de sua construção.

Em resumo, mover-se.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Além de uma prisão no escuro

Texto do jornalista publicado na coluna na versão impressa da edição de 7 de junho de 2010:

O bairro estava escuro. A abordagem foi rápida. Dois jovens são conduzidos à parede de um muro, mãos na cabeça.

O PM conduz a conversa, perguntando a um dos detidos se ele era traficante. A negativa vem, mas não convence.

Há uma confissão, como se fosse suficiente para mudar o panorama penal. O rapaz murmura que é apenas um usuário de maconha.

O militar diz que irá procurar atrás do muro e que, dependendo do que encontrar, irá enquadrá-lo. Uma busca simples revela o esconderijo da droga. E há variados tipos de entorpecentes, em quantidades nada pequenas para quem diz que só consome.

O suspeito detido já não tem como negar. “Sou viciado em coca, sinhô! E também em maconha. E também em...”.

Nas cenas seguintes, vemos os PMs indo até a residência do jovem, uma moradia simples da periferia de São Paulo, no extremo de uma baixada.

Encontram o pai do rapaz. Que se desespera, mais uma vez.

Sua fala é um indicativo de quem não sabe o que fazer. Avisa aos policiais que ali só mora gente trabalhadora, de bem.

O militar pergunta a respeito do filho que acaba de ser detido. “Ah, senhor, esse é o único que não quer trabalhar. Chego em casa, pergunto à minha mulher onde ele está, e ele está por aí...”.

Não é a primeira vez que o rapaz é preso. Nada indica que será a última.

O drama que relato é apenas um dos exibidos num programa curioso - e polêmico - lançado pela TV Bandeirantes no mês passado, chamado “Polícia 24 horas”.

Equipes da emissora acompanham e documentam a rotina dos policiais, nas mais diversas abordagens; de homicídios a apreensão de drogas, de brigas de vizinhos à prisão de um suspeito de abuso sexual contra a própria neta.

Nunca tive apreço por esses programas policiais, boa parte deles sensacionalistas, que desde a década passada se tornaram frequentes nas grades de programação.

Mas o que desperta a reflexão nesse programa, em específico, é o grau de dramatização existente em cada história abordada, e a necessidade, por parte das corporações policiais, de ter, numa mesma operação, sensibilidade e firmeza, quando cada uma for precisa, para atuar nas mais diferentes situações.

O que não é fácil, já que os integrantes de nossas polícias são, também, reflexos da cultura brasileira, e sujeitos aos mesmos dramas vividos pelos suspeitos que prendem.

Não é preciso ir longe para se deparar com dramas reais. Numa mesma semana, esta Gazeta mostrou que, desesperadas, algumas famílias estão acionando a Justiça para conseguir internar os filhos com o objetivo de livrá-los das drogas, e o número de crianças vítimas de abuso sexual atendidas pelo programa Pérola aumentou em seis meses.

A questão é: temos uma sociedade preparada - incluindo polícias, escolas, poder público, Justiça, entidades, entre outros - para, de forma madura, compreender a dimensão e a complexidade dos dramas escondidos, por exemplo, atrás da detenção do rapaz que relatei no início?

Creio que não, mas examinar com profundidade essas situações é um caminho que pode e deve ser insistentemente percorrido por todos.